Frações Financeiras 5 – O juro baixou. O que fazer?

O que é juro real?

A subida geral de preços, que chamamos de inflação, corrói o poder de compra do dinheiro: R$ 100 no dia de hoje compram mais produtos do que R$ 100 daqui a um ano. Quando investimos precisamos ter alguma garantia de que nosso dinheiro não vai ser desvalorizado pela subida de preços. Por esse motivo, a taxa de juros deve ter um componente que recompõe esse efeito que a inflação causa no dinheiro. A outra parte da taxa de juros é chamada de juro real, que é aquela parte dos juros que sobra depois de excluirmos a inflação. O juro real é o ganho de verdade, o outro só recupera o que a inflação comeu.

Exemplo

Imagine que aplicamos nosso dinheiro a 5% de juros, num período em que a inflação foi exatamente 5%. Nesse caso o juro real de nossa operação foi igual a zero.  O juro de 5% serviu somente para atualizar o poder de compra, ou seja, só corrigiu o efeito da inflação.

Outro Exemplo

Pensemos numa aplicação a 5% de juros e uma inflação de 10% no mesmo período. O que aconteceu com nosso dinheiro? Tivemos um juro real negativo, ou seja,  perdemos da inflação, perdemos poder de compra. Podemos comprar menos coisas depois da aplicação do que podíamos comprar antes.Juro real positivo

No ano de 1998, a inflação medida pelo IPCA foi de 1,66%. A taxa de juros Selic acumulada no ano foi de 28,78%. Isso indica que o juro real nas operações com taxa Selic foi positivo e atingiu 26,69% no ano, o recorde da história recente brasileira, como se pode ver no gráfico ababixo. As pessoas que investiram ganharam 26,69% acima da inflação. Mesmo pagando imposto de renda sobre esse valor, o ganho foi enorme.

Juro real desde o Plano Real

O gráfico mostra, também, a taxa de juro real desde o início do governo Fernando Henrique, passando por Lula e o primeiro ano de Dilma Roussef. Esses números resultam da acumulação da taxa Selic de cada dia do ano, e em seguida, da retirada da inflação mostrada pelo IPCA. Não há mais como duvidar que a trajetória de queda, mesmo com possíveis percalços, deve se manter.

Juro real de 540% no período

Uma aplicação a 100% do CDI, ou a taxa Selic, como pela compra de uma LFT, rendeu, de 01/01/1995 até 31/12/2011 rendeu 540% acima da inflação medida pelo IPCA. Desse modo, uma pessoa que tenha aplicado R$ 100.000 lá no início de 1995, teria R$ 640.000 no final de 2011, se desconsiderarmos o imposto de renda.

Baixo risco com liquidez

Um exercício que supõe que a cada ano pagaríamos 20% de imposto de renda mostra que R$ 100.000, investidos no início de 1995, resultariam em aproximadamente, R$ 350.000 no final de 2011. Se avaliarmos que esse valor poderia teria sido conquistado com risco muito baixo, porque a possibilidade de um calote do governo nesse período foi sempre muito baixa, chegamos à conclusão que dificilmente sobraria motivação para correr risco em outros mercados, como o de ações.

Se adicionarmos o argumento que as aplicações em CDBs ou em LFTs geralmente permitem ao investidor o resgate a qualquer momento, o que chamamos de liquidez, concluímos que podia-se ganhar muito da inflação com risco muito baixo e mantendo-se alta liquidez.

Qual é a meta?

Alta rentabilidade com liquidez e baixo risco é uma anomalia, que aparentemente está deixando de existir. Assim, precisamos, a partir de agora, escolher o que vamos privilegiar. Um dinheiro que não podemos perder só deve ir para aplicações de renda fixa com baixíssimo risco. Recursos que podemos precisar a qualquer momento têm de ir para aplicações que nos permitam resgates diários ou semanais. Recursos de médio e longo prazo podem buscar melhor rentabilidade em mercados com de maior risco. Tudo indica, então, que precisamos primeiro responder: estamos guardando dinheiro para quê? Mas esse será o tema do próximo número da série Frações Financeiras.

About cesarlocatelli

Sócio Diretor da F2 Formação Financeira. Mestre em Economia e Professor de Finanças, Derivativos e Planejamento Financeiroa
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