Frações Financeiras 6 – Guardar dinheiro para quê?

A vida do poupador era mais simples quando a taxa de juros estava na Lua. Qualquer aplicação financeira rendia mais que a inflação e deixava muita gente feliz. O investimento produtivo e as finanças públicas eram comprometidos, mas quem tinha dinheiro acumulava cada vez mais. Agora é preciso discutir o objetivo da poupança para aplicar os recursos de modo adequado e, ao correr um risco um pouco maior, tentar ganhar um pouco mais.

Começar pelo começo

Acho que a primeira coisa que todo mundo deveria fazer é montar uma reserva de emergência. Fatos inesperados, como perder o emprego ou sofrer um acidente, ocorrem com frequência e nos empurram para o cheque especial ou para deixar de pagar tudo o que consumimos no cartão. Uma reserva de emergência nos dá tranquilidade para pensar no que é mais importante: recuperar do evento desagradável.

Essa reserva tem de ficar em aplicações líquidas, como poupança, tesouro direto ou fundos de baixo risco como DI ou curto prazo. As aplicações líquidas, que podemos resgatar a qualquer tempo, e seguras tendem a ter rendimento baixo. Havia uma anomalia no Brasil que agora está sendo corrigida: podia-se aplicar com liquidez, segurança e alto rendimento. Não se pode mais e ganhar da inflação com aplicações financeiras vai ficar cada vez mais difícil.

E o futuro mais distante?

Se a reserva para emergências já está feita e há uma intenção de poupar para longo prazo, para aposentadoria, por exemplo, acho que já se pode pensar em colocar um percentual em ações. A queda recente não importa muito se o objetivo é de longo prazo e se o investidor monta sua carteira bem devagar.  Se acreditamos que a economia mundial vai voltar a crescer um dia, podemos ir montando uma carteira para ganhar com esse movimento lá na frente. Os investimentos para a aposentadoria nos países em que os juros são baixos estão, com frequência, carregados de ações. Isso é correto pela possibilidade de crescimento da economia, e das empresas, acima da taxa de juro real.

O que não se aconselha é ficar carregado em ações quando se pode precisar do dinheiro no curto prazo ou quando já se está mais perto da aposentadoria. Também não se aconselha entrar na bolsa de uma só vez, porque pode- se pegar um pico que demorará demais para ser alcançado novamente. Além disso, não se deve colocar um percentual que deixe o investidor agoniado, porque ele terá pouca força para segurar nos momentos de fraqueza do mercado.

Novos tempos

O Tesouro Direto perde um pouco do charme pela queda do juro real. Aplicar sem risco com juro real perto de 10% ao ano deve ser considerado coisa do passado. Mas ainda é vantajoso frente às taxas de administração cobradas por muito fundos. Há corretoras que cobram taxa zero do agente de custódia, mas há 0,1 de taxa de negociação e 0,30 da CBLC (veja o número 4 da série Frações Financeiras).

Diversificação

Acredito que é sempre bom diversificar. Isso inclui ter ativos em outras moedas. No entanto, assim como no caso das ações, é perigoso comprar dólares ou ouro de uma só vez. A chance de acertar um topo, ou seja, um valor alto que demorará anos para ser superado, é muito grande. Se achar que deve ter uma parte dos recursos em outra moeda, que se vá montando devagar essa posição.

Devo apostar no dólar?

Não acho que o dólar tenda a patamares cada vez mais altos. Hoje ouvi no elevador uma pessoa perguntando se o dólar vai para 2,5 ou 3 reais. É possível, mas eu não apostaria nisso. Não se pode esquecer que o BC tem 370 bilhões de dólares em reservas. Um montante que o Brasil nunca sonhou que um dia teria. Parte grande do movimento do dólar é efeito de medidas do próprio governo para melhorar a competitividade das nossas exportações.

Devo apostar?

Acho importante ter clareza que o investidor não profissional não tem que fazer apostas: ele escolhe o objetivo de longo prazo, adota uma alocação que o deixe confortável e avalia de tempos em tempos, de acordo com suas metas. Apostar é para uma minoria como as tesourarias de bancos e investidores que passam as 24 horas do dia ligados nos movimentos dos mercados. Achar que se pode ganhar deles é um tanto presunçoso. Não precisamos abrir mão de nossa tranquilidade para atingir nossas metas de longo prazo.


About cesarlocatelli

Sócio Diretor da F2 Formação Financeira. Mestre em Economia e Professor de Finanças, Derivativos e Planejamento Financeiroa
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