Minha entrevista ao Valor Econômico 14/12/2012

Risco cresce também para prefixados

Por Luiz Sergio Guimarães

 Locatelli: aplicações prefixadas são boas para quem confia numa gestão equilibrada da política monetária

A pesada redução da taxa de juros feita pelo Banco Central, de 12,5%, em agosto do ano passado, para os atuais 7,25%, alterou completamente o mercado de títulos de renda fixa.

O motivo é que o achatamento do juro real (o ganho que supera a inflação) tornou mais agudos os riscos envolvidos nas aplicações em CDB, fundos de renda fixa, debêntures e papéis do governo. Antigamente, quando os juros reais eram muito elevados, os riscos e erros dos gestores podiam ser mascarados.

Agora não mais. Como a inflação não caiu enquanto a Selic despencava, o juro real para doze meses ronda hoje 1,8%. Aplicações em fundos de renda fixa que cobram taxas de administração de 1% ou mais podem nem repor a inflação depois de descontados os impostos. O que deve fazer o investidor preocupado em amealhar uma poupança que lhe permita uma aposentadoria confortável?

Para quem não abre mão do conservadorismo da renda fixa, os especialistas só veem duas opções: ou o investidor concorda em alongar o prazo da aplicação ou se sujeita a correr o risco de crédito de emissores que não sejam de primeira linha e que, por isso, pagam mais na captação de recursos.

Todas as aplicações de renda fixa, mesmo as mais conservadoras do mercado, embutem algum tipo de risco. Este pode ser inerente às flutuações da taxa de juros ou de crédito, quando uma instituição se torna insolvente e não consegue honrar o resgate do papel. É o que acontece com os clientes que fazem aplicações em instituições que sofrem intervenções do Banco Central. Eles asseguram, por lei, apenas os R$ 70 mil garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O problema é que, como regra geral, quanto menor for o risco de crédito do emissor menor será o rendimento que estará disposto a pagar.

Os títulos de renda fixa prefixados – assim chamados porque desde o início se sabe quanto o aplicador vai receber no resgate – são indicados para épocas em que uma tendência evidente de queda dos juros se torna mais pronunciada com o passar do tempo. Ou seja, as aplicações mais antigas, fechadas com taxas mais altas, são beneficiadas por movimentos de diminuição dos juros mais incisivos do que previa o mercado futuro de juros da BM&F, o grande balizador dos juros prefixados.

Quando ocorre o inverso – ciclo de alta dos juros ou decisão do Banco Central de elevar subitamente a Selic ou num ritmo maior do que o esperado -, os prefixados perdem. Atualmente, como o cenário é de manutenção da Selic em 7,25% até o fim de 2013, o risco de mercado é muito baixo.

Mesmo um prefixado acima de qualquer suspeita – a Letra do Tesouro Nacional (LTN), cujo risco de crédito é zero -, pode proporcionar surpresas desagradáveis. O exemplo é do economista César Locatelli, sócio-diretor da F2 Formação Financeira: toda LTN vai valer R$ 1000 na data do resgate; se o juro do papel que vence em um ano for de 10% a LTN custará R$ 909,09; mas se o juro do mercado, por um motivo ou outro, subir para 15%, o valor da LTN cai para R$ 869,57; ou seja, como o aplicador pagou R$ 909,09 por um papel que vale hoje R$ 860,57 não será negócio revendê-lo antes do resgate; mas será vantajoso se ocorrer o caminho inverso, o do declínio do juro de 15% para 10%. “Os títulos prefixados podem sofrer perdas com dois movimentos: uma subida da taxa de juros de mercado ou uma alta da inflação”, diz Locatelli. Nas aplicações em fundos tradicionais de renda fixa, a perda ou ganho é automaticamente registrado no valor diário da cota. Não será possível escolher a opção de levar o papel até o seu vencimento. É por isso que muitos investidores se assustam com eventuais cotas negativas em fundos conservadores aparentemente imunes a oscilações.

Por causa dos riscos relacionados às variações dos juros e da inflação, os prefixados precisam oferecer rendimento acima da Selic e do CDI. No site do Tesouro Direto havia, na semana passada, duas ofertas de LTN, uma com vencimento em janeiro de 2015 com rendimento de 7,71% e outra para resgate em janeiro de 2016 com ganho de 8,29%.

O alongamento do prazo em um ano faz a diferença por causa das incertezas futuras. Os juros são superiores à Selic de 7,25% exatamente porque há riscos nessas operações, e o mercado exige um pequeno prêmio para corrê-los. “São os riscos de que entre hoje e o resgate haja um descontrole inflacionário e o BC seja obrigado a subir a taxa básica de juros. Se nada disso ocorrer, o investidor terá ganhos superiores à taxa Selic, ou ao DI que anda junto com a Selic. Corre-se mais risco para eventualmente ganhar um prêmio”, diz o sócio da F2.

As aplicações prefixadas são boas para quem confia numa gestão equilibrada da política monetária. Se o investidor acredita que o BC conseguirá segurar a inflação na meta de 4,5%, sem precisar subir demais o juro, um alongamento por meio, por exemplo, da NTN série F (NTN-F) pode se mostrar bem vantajoso. Esse papel com vencimento em janeiro de 2023 estava sendo oferecido com rendimento de 9,38% ao ano.

Os riscos envolvidos na aquisição de papéis pós-fixados, cujo rendimento só será conhecido no final, são os de fazer aplicação menos rentável que a prefixada dependendo do momento vivido pelo mercado. Um bom exemplo de pós-fixado é a Nota do Tesouro Nacional série (NTN-B), que paga a inflação (variação do IPCA) mais uma taxa de juros. No site do Tesouro, era oferecida a NTN-B com resgate em agosto de 2020 e juro de 3,23%. Bom negócio? Se o BC for obrigado a subir a Selic para controlar a inflação, a NTN-B renderá mais também pelo avanço da inflação. O que implicaria perda para o investidor nesse papel? Locatelli explica: “Uma perda aconteceria se o BC fosse obrigado a subir a taxa de juros real, e o aplicador tivesse que vender o papel antes do vencimento. Nessa hipótese, o desconto deverá ser grande para conseguir vender o título e por acarretar perda. Se o título for mantido até o vencimento seu rendimento será a inflação medida pelo IPCA mais a taxa pactuada de 3,23% ao ano.”

Se o BC efetivamente conseguir manter o juro real mais baixo, as NTN-Bs, que já asseguram o poder de compra pela correção pelo IPCA, também terão juro real assegurado, mesmo para quem precisar se desfazer do título antes do vencimento.

Nas épocas de juros reais altíssimos, as Letras Financeiras do Tesouro (LFT), por pagarem 100% da variação da Selic/CDI, sempre foram as coqueluches. “É comum ouvirmos que os brasileiros gostam de papéis indexados ao DI. A verdade é os brasileiros, e todos os outros, gostam de juro alto quando estão aplicando seus recursos e o DI proporcionou rendimentos estelares após o Plano Real. Não mais: sem risco e em curto prazo o rendimento deve ser parecido com a inflação”, diz o economista.

 

About cesarlocatelli

Sócio Diretor da F2 Formação Financeira. Mestre em Economia e Professor de Finanças, Derivativos e Planejamento Financeiroa
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