Frações Financeiras 20 – CDI: o rabo que abana o cachorro

O artigo “CDI se descola da Selic e provoca distorções’, no Valor Econômico de 16/01/2013, assinado por Angela Bittencourt, Carolina Mandl, Lucinda Pinto e Luciana Seabra traz à tona um importante assunto. É recheado, no entanto, de imprecisões.

A questão central é que o CDI e a taxa Selic, que costumavam andar juntas, estão se descolando. Aliás, sempre foi uma dificuldade explicar para meus alunos a razão delas andarem juntas, ja que são operações que se prestam ao mesmo fim, são feitas por um dia, mas o CDI representa maior risco, pois não tem o título público como garantia.

Vejamos o jogo dos sete erros.

1. “A Selic remunera títulos públicos federais”, afirma o artigo.
A taxa Selic é a taxa média das operações compromissadas de 1 dia, também chamadas de operação de overnight. Essas operações usam títulos públicos como lastro da operação, como garantia. Os bancos usam essas operações para aplicar excessos momentâneos de caixa ou para suprir necessidades, também momentâneas de caixa. Esse mercado tem girado diariamente mais de 600 bilhões de reais.

O CDI também é usado pelos bancos pelos mesmos motivos que as operações de overnight: para aplicar ou captar caixa de curtíssimo prazo. E, de fato, o volume de negócios em DI over tem mostrado menos de 2 bilhões de reais por dia. O banco que aplica no CDI corre o risco da instituição financeiro tomadora sem a garantia extra”do título público que lastreia as operação no Selic.

2. “Esses dois mercados são incomparáveis em volume financeiro porque os títulos públicos somam R$ 1,752 trilhão na posição mais recente de novembro passado, além de R$ 578 bilhões também garantidos por papéis emitidos pelo Tesouro Nacional na mesma data, mas comprometidos em aplicações de curtíssimo prazo feitas por bancos diretamente no Banco Central (BC)”, assevera o texto.
Os mercados são incomparáveis, mas os volumes que devem ser comparados são 600 bilhões de reais em operações de overnight com títulos públicos com 2 bilhões de CDI.

3. “Os bancos usam essas operações de compra e venda temporária de papéis públicos da carteira do BC para obter um pouco mais de lucro”, continuam os jornalistas do Valor Econômico.
Os bancos usam essas operações para a gestão do dia a dia de seus caixas.

4. “O CDI é a taxa de referência de um mercado equivalente a cerca de R$ 100 bilhões e garantido por títulos privados”.
Como já vimos o CDI over, que é o que nos importa gira menos de 2 bilhões por dia.

5. “Para Paulo Gala, estrategista da Fator Corretora e professor da Fundação Getúlio Vargas, o descolamento do CDI em relação à Selic faz parte do plano governamental de desindexação da economia. “Tudo que o governo fez foi deixar o mercado muito encharcado. É uma agenda deliberada para punir o curto prazo”, diz“, dizem.
Um eventual excesso de liquidez faria com que caíssem ambas as taxa do Selic e do CDI, dado que a cada dia os bancos podem escolher se aplicam seus excedentes em um ou em outro. Se um mercado gira 600 bilhões e o outro 2 bilhões está claro aonde os bancos estão preferindo colocar suas sobras de caixa. O governo, realmente, está empenhado em acabar com a indexação do mercado ao DI, mas, seguramente, não faz isso aumentando a liquidez do mercado.

6. “Por mais contraditório que pareça, já que muito se fala nas dificuldades de funding das instituições menores, os bancos médios são os grandes doadores de recursos no estreito mercado de DI”, afirmam.
Difícil crer nessa afirmação. Mesmo que verdadeira, existem menos de 20 operações de CDI por dia, seriam apenas alguns poucos bancos médios que resolveram perder dinheiro ao optar por doar recursos no CDI, a taxa mais baixa, e não no Selic.

7. “Algumas instituições de pequeno e médio portes que não operam no sistema Selic estariam aplicando o excesso de caixa no CDI,” ponderam.
Ora, não existe nenhuma razão para uma instituição pequena não operar no Selic. Só se algum banqueiro pequeno resolver perder dinheiro deliberadamente. Não há banco que tenha dificuldade de aplicar recursos em operações de Selic. Os mercados de Selic e CDI são facilmente arbitrados, ou seja, os bancos podem efetivamente trocar de um para outro com extrema facilidade quando estão aplicando seus recursos.

A dúvida, portanto, do motivo do descolamento persiste. O mercado de CDI é ridiculamente pequeno. E indexa um mercado enorme de fundos, certificados de depósitos bancários, debêntures e assim por diante. Aliá o CDI nos remete à Libor, que só tem poder por que indexa um mundo de contratos. O rabo faz o que quer com o cachorro.

About cesarlocatelli

Sócio Diretor da F2 Formação Financeira. Mestre em Economia e Professor de Finanças, Derivativos e Planejamento Financeiroa
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