Frações Financeiras 22 – A inflação está mesmo fora de controle?

Muitas manchetes dão a entender que a inflação saiu do controle. Há um visível cabo de guerra em torno da política monetária brasileira. A julgar pela fala de muitos economistas, o Banco Central deveria voltar a subir a taxa de juros. A julgar pela última fala do Banco Central, permaneceremos por longo tempo vendo a taxa básica de juros a 7,25%.

Estamos, finalmente, com uma taxa compatível com o resto do mundo

Se imaginarmos uma inflação anual em 5,5% e a taxa Selic a 7,25% ao longo do ano inteiro, estaremos falando que a taxa de juros de um dia no Brasil embute um juro real de 1,66% ao ano. O que você sente quando se lembra que o juro real médio do primeiro governo de FHC foi 21,65% ao ano? E quando se recorda que no primeiro governo de Lula foi 11,27% ao ano? Minha opinião é que é impossível o país funcionar de modo normal com um juro real desse tamanho nas operações de um dia. Agora que estamos entre 1% e 2%, vamos começar a perceber que não adianta querer ganhar dinheiro simplesmente emprestando para o governo e em curto prazo. Veremos um deslocamento para ações e para investimentos produtivos, creio. Além disso, o custo do governo com o carregamento da dívida vai cair muito, abrindo espaço para mais investimento.

As expectativas definem a inflação

Muitos economistas acreditam piamente que a taxa de juros é milagrosa e tudo pode. Do meu lado atribuo poderes milagreiros às expectativas. Se as pessoas estiverem convencidas que a inflação vai para a Lua, ela irá. É por esse motivo que acredito que a batalha pela inflação dos próximos tempos está sendo travada, entre o governo e diversos economistas. Nos últimos 14 anos tivemos 9 índices de inflação maiores do que o IPCA de 2012, entretanto, ouvimos com frequência que, a persistir o juro baixo, perderemos o controle e rumaremos ide volta a altos nívei de inflação. O governo, por seu turno, não fica inerte e lança mão de seu arsenal para mostrar que a inflação convergirá para o centro da meta proximamente. Atacar de modo permanente custos das empresas e das pessoas, como nas tarifas de energia, é uma das armas e pode dar bons resultados.

E quanto aos juros dos próximos meses?

Se, por um lado, a própria ata do Copom nos adverte que o balanço de riscos para a inflação apresentou piora no curto prazo. Por outro, não temos, hoje nenhum motivo para crer que voltaremos a ver juros reais, acima da inflação, tão altos quanto os mostrados aqui. É natural, no entanto, que a taxa de juros de um dia, taxa Selic, suba ou caia, moderadamente, nos próximos tempos em função dos dados que serão avaliados nas próximas reuniões do Copom. Um método interessante para se avaliar o pensamento do mercado financeiro para o futuro é acompanhar o preço da NTN-B de 2023 no sítio do Tesouro Direto. Em agosto do ano passado esse papel era negociado a 10% ao ano. Caiu no final de 2012 para perto de 9,20% e, agora em janeiro de 2013, está a 9,46%. Como é um papel de 10 anos, sua tendência é potencializar as expectativas que, podemos ver, estava melhorando no segundo semestre do ano passado, virou o ano em nível baixo e piorou nesse mês de janeiro.

Essa discussão é econômica ou política?

No seu surgimento, a ciência econômica era integrada à política. As tentativas de torná-la “exata” como a física foram bem sucedidas: muitos acreditam que há fórmulas imutáveis a reger o ambiente econômico. Do meu lado, prefiro a visão de que a economia é uma ciência social, já que as pessoas estão decidindo a cada instante o rumo que, de modo agregado, os negócios vão tomar. Por isso leio o noticiário econômico como um embate entre o poder e os aspirantes ao poder. Por isso acredito muito mais na influência das expectativas na inflação do que no tamanho do juro real. E se tivesse que apostar, diria que veremos esses 7,25% até enjoar.

About cesarlocatelli

Sócio Diretor da F2 Formação Financeira. Mestre em Economia e Professor de Finanças, Derivativos e Planejamento Financeiroa
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