Conceitos e Críticas de “Consequências do Senhor Mantega”

Em 12/07/2013 o jornal Valor Econômico publicou o artigo Consequências do Senhor Mantega, por Luiz Fernando de Paula e André de Melo Modenesi

 O texto que agrego ao original de Paula e Modenesi busca explicitar conceitos econômicos para o leitor não-economista, bem como apontar meus questionamentos ou minhas discordâncias com sua análise.

Os autores

Luiz Fernando de Paula e André de Melo Modenesi são economistas e professores na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A linha que eles seguem é keynesiana, também denominada heterodoxa para distinguir da linha neoclássica ou ortodoxa.

O artigo promove uma discussão essencial no momento do país por evidenciar as diferenças entre as visões de economistas de uma escola ou outra. Especialmente porque a maioria dos economistas e analistas que opinam nos meios de comunicação brasileiros são ortodoxos.

Paula e Modenesi defendem as práticas embasadas na teoria keynesiana e criticam a atuação do ministro Mantega.

Mudança no mix de política econômica

A política econômica de um governo tem uma mistura (mix) de diversas políticas. A política monetária é aquela que interfere nas taxas de juros e no crédito para pessoas e empresas. A política fiscal é a regulagem de receitas e despesas do governo, que implica mais ou menos gastos e maiores ou menores impostos. A política cambial determina a forma de flutuação da taxa de câmbio, desde taxa fixa até taxas com flutuação completamente livre. A política de rendas determina o salário mínimo, as transferências, isenções de impostos, etc.

Paula e Modenesi afirmam que “Recentemente, verificou-se importante mudança no mix de política econômica, materializada na redução histórica da taxa de juros e na desvalorização da taxa de câmbio.”  Fato intrigante é não opinarem sobre a redução da taxa de juros que a aproximou das taxas praticadas em países em situação semelhante à brasileira.

Necessidade de se aprofundar o debate

“Entretanto, o baixo crescimento do PIB em 2011/12 (média de 1,8% a.a., contra 3,6% em 2001/10) e a perspectiva de um desempenho ruim em 2013 reforçam a necessidade de se aprofundar o debate sobre as causas da desaceleração econômica no Brasil. Para alguns analistas, tal desempenho decorre da adoção de políticas ditas keynesianas. Segundo esta visão, qualquer política ativista e expansionista é keynesiana. A nosso juízo, trata-se de visão reducionista e equivocada”, asseveram.

Paula e Modenesi refutam a crítica apresentada por economistas ortodoxos de que o fraco desempenho da economia brasileira é decorrência da adoção pelo governo de políticas keynesianas, pois não consideram que “qualquer política ativista e expansionista” seja keynesiana. Eles propõem debater as razões da desaceleração do crescimento brasileiro.

As políticas keynesianas

“As políticas keynesianas supõem a inexistência de forças automáticas (a “mão invisível” de Smith) que conduzem a economia ao pleno emprego, ressaltando-se a importância da demanda agregada na determinação do nível de atividade econômica (produto e emprego)”, pontuam eles.

Os ortodoxos acreditam que a economia tende ao crescimento e ao pleno emprego sem interferência do governo. A economia é dita em pleno emprego quando os recursos humanos e bens de capital são plenamente utilizados. Para os ortodoxos tudo se passa como se houvesse uma mão invisível, como disse Adam Smith, que agiria para conduzir a economia ao pleno emprego.

Os keynesianos não acreditam que a economia tenda ao pleno emprego e propõe ações que os governos devem tomar para incentivar a economia. São chamados, por isso, de ativistas pois julgam que o governo precisa agir para se chegar ao pleno emprego.

Afirmam eles que “em linhas gerais, [na adoção de políticas econômicas keynesianas] tem-se como objetivo criar um ambiente favorável ao investimento produtivo, buscando assegurar elevados níveis de emprego e de renda, bem como a estabilidade de preços – vital para o funcionamento de uma economia monetária que se baseia em uma teia de contratos definidos em termos nominais”.

A condução ortodoxa da política econômica foca primordialmente na estabilidade de preços, já que os partidários dessa linha teórica acreditam que a economia por si só se direcionará a elevados níveis de emprego.

A condução heterodoxa da política econômica entende que é função do governo estimular a economia e, principalmente, o investimento, nos momentos de baixa atividade ou baixo crescimento.

A crítica de Paula e Modenesi aqui é que a política ortodoxa visa a estabilidade de preços e a política keynesiana visa a estabilidade macroeconômica, ou seja estabilidade de preços com crescimento e alta utilização da capacidade produtiva do país.

“Assim, pretende-se estimular os empresários a assumirem riscos adquirindo bens de capital – em busca de lucros compensadores – em detrimento do acúmulo de ativos líquidos. Ou seja, visa-se a estabilidade macroeconômica, algo mais amplo do que a mera estabilidade de preços. Em suma, o governo pode contribuir para reduzir os riscos macroeconômicos – e a incerteza – que permeiam a economia”, apontam Paula e Modenesi.

A coordenação da políticas macroeconômicas

Para diferenciar a visão keynesiana da ortodoxa quanto à coordenação de políticas, declaram: “a coordenação das políticas macroeconômicas (fiscal, monetária, cambial e políticas de renda) é um elemento fundamental. A coordenação, contudo, é vista de forma diferente da concepção ortodoxa”.

A visão convencional, a seguir, é a visão ortodoxa. Os autores ressaltam o protagonismo do controle da inflação no campo teórico ortodoxo: “Segundo a visão convencional, o objetivo primordial da política macroeconômica é a estabilidade de preços – por sua vez, considerada único objetivo a ser alcançado pela política monetária. Já a política fiscal deve ser subordinada à política monetária”.

Os seguidores da visão keynesiana não acreditam que a economia tenda, por suas próprias forças internas, ao pleno emprego e é nesse sentido indicam que os governos devem agir para estimular a demanda agregada. Nas palavras dos autores: “Na perspectiva keynesiana, políticas econômicas específicas não devem ser formuladas de forma isolada das demais. Em particular, considera-se que a política fiscal – focada no investimento público, dado seu maior efeito multiplicador de renda e suas externalidades positivas – impacta a atividade econômica, funcionando como instrumento poderoso para estimular a demanda agregada. A clara e inequívoca sinalização das intenções da política é essencial para estimular os agentes privados a atuarem na direção desejada pelas autoridades econômicas. Ao contrário do que comumente se pensa, Keynes e os economistas keynesianos defendem a transparência e não o segredo como uma condição para o sucesso da política econômica. “

“Uma política sem credibilidade pode encontrar sérias dificuldades em lograr êxito em seus objetivos. Uma coordenação de políticas apropriada aos objetivos almejados, ainda que necessária, não é algo fácil de se alcançar”, asseveram Paula e Modenesi.

Nesse aspecto, importa ressaltar que a ação de redução da taxa básica de juros levou a uma união das vozes discordantes que, possivelmente, teve influência preponderante na queda da credibilidade nas ações na chamada crise do euro. Fato que não aconteceu na crise das hipotecas posto que o Banco Central de Meirelles subiu a taxa às portas da desaceleração mundial.

Má coordenação de políticas econômicas

Paula e Modenesi separam as duas crises recentes: a crise americana das hipotecas subprime, chamada por eles de crise do Lehman Brothers, e a crise do euro evidenciada pela queda da Grécia e dúvidas sobre a sustentabilidade de longo prazo da união monetária da Europa: “Sustentamos que a desaceleração econômica recente no Brasil é, em boa medida, resultado de má coordenação de políticas econômicas e de uma estratégia confusa, que não foi devidamente sinalizada aos agentes econômicos. Utilizando o linguajar médico, alguns remédios, ainda que recomendados (como redução de juros), foram insuficientes para combater a doença; outros, entretanto, foram erroneamente prescritos. Assim, cabe entender por que as políticas anticíclicas foram bem-sucedidas para enfrentar o contágio da crise do Lehman Brothers, mas não evitaram o contágio da crise do euro”.

A crise das hipotecas subprime

Sobre a crise de 2008 afrimam os autores: “o contágio da crise do Lehman Brothers sobre a economia brasileira, a partir de setembro de 2008, foi muito agudo e rápido: saída de capitais estrangeiros aplicados em bolsa; redução da oferta de crédito externo para bancos e firmas (inclusive exportadoras); aumento das remessas de lucros e dividendos por parte de subsidiárias de empresas multinacionais; retração do mercado de crédito doméstico; e empoçamento de liquidez no mercado interbancário. A vulnerabilidade da economia brasileira agravou-se em função do uso especulativo de derivativos cambiais por parte de algumas empresas exportadoras, que lucravam apostando na continuidade do processo de apreciação cambial.

O governo respondeu com uma grande variedade de instrumentos, incluindo: medidas de reforço à liquidez do setor bancário (redução do compulsório e criação de incentivos para os grandes bancos comprarem as carteiras de créditos de pequenos bancos); linha temporária de crédito às exportações; intervenções do Banco Central (BC) no mercado cambial (venda de US$ 23 bilhões no último trimestre de 2008); estímulo à expansão do crédito por parte dos bancos públicos; redução do imposto sobre produtos industrializados (IPI) para automóveis, eletrodomésticos e produtos de construção; aumento do período de concessão do seguro-desemprego; e criação de um programa de construção de moradia popular (“Minha Casa Minha Vida”).”

Essas medidas são denominadas de anticíclicas porque a economia dirigia-se a um ciclo de baixa e as medidas buscaram influir no sentido inverso, incentivando e atenuando a baixa. Destaque-se que na crise das hipotecas veio a público a derrocada de grandes empresas brasileiras que estavam em posição passiva estrutural ou especulativa em moeda estrangeira, aliada a uma crise de liquidez no mercado financeiro brasileiro que culminou com enorme dificuldade de captação de recursos por parte das instituições financeiras de pequenos e médio porte. Esse aspecto torna a comparação sobre a reação do governo em um momento e em outro mais complexa do que se imagina à uma primeira vista.

Sobre os juros em 2008, apontam ele que “a nota destoante foi a manutenção da taxa de juros elevada pelo BC (gestão Henrique Meirelles) até o início de 2009, contrastando com a política fiscal anticíclica e a política creditícia dos bancos públicos”.

Importa discutir dois aspectos a propósito da manutenção de juros altos em 2008. Em primeiro lugar, a manutenção de taxa de juros alta parece ter sido crucial por conquistar apoios ou, no mínimo, não criar resistências de parte preponderantes dos economistas e comentaristas do cenário econômico brasileiro. Em segundo, se em 2008 a taxa de juros estava elevada e as medidas tomadas foram bem sucedidas em não deixar a economia do país se desacelerar fortemente, e na crise do euro a economia não reagiu mesmo com taxas historicamente baixas, talvez possamos afirmar que a demanda agregada não é tão afetada pela taxa de juros como afirmam a enorme maioria dos economistas de tradição ortodoxa.

“O gráfico 1 mostra a taxa de crescimento do crédito por controle de capital. Destaca-se o papel anticíclico dos bancos públicos (BNDES, Banco do Brasil e CEF) face à desaceleração dos bancos privados”, marcam Paula e Modenesi.

Nota-se aqui que os bancos públicos amenizaram a queda na velocidade de crescimento do crédito entre o segundo semestre de 2008 e início de 2011.

Consequências do Senhor Mantega 1

As ações na crise das hipotecas subprime

Aqui Paula e Modenesi apontam o acerto das ações tomadas após a quebra do banco Lehman Brothers: “O governo agiu de forma rápida e coordenada e também sinalizou claramente o objetivo de adotar uma política anticíclica. Contribuiu, assim, para evitar uma deterioração mais drástica das expectativas, logrando êxito na recuperação econômica, a partir de meados de 2009. Em particular, o crescimento da formação bruta de capital fixo e do consumo contribuiu para a rápida recuperação”.

Eles sublinham ainda o crescimento dos investimento: “Em resposta à retomada do crescimento, à restauração da confiança dos agentes e à ampliação do nível de utilização da capacidade instalada da indústria, o investimento cresceu de 17,0% do PIB (primeiro trimestre de 2009) para 20,5%, no terceiro trimestre de 2010.”

As exportações ajudaram no retorno do Brasil a taxas maiores de crescimento. O que não se deve a ações do governo brasileiro, mas sim ao aumento dos preços das commodities pela forte demanda, especialmente chinesa.

“Melhora no termos de troca” significa que os preços do que exportamos ficou maior do que os preços daquilo que importamos.

Como afirmam os autores: “As exportações, por sua vez, foram favorecidas pela forte melhora dos termos de troca, devida principalmente à retomada da economia chinesa – com crescimento de 9,2%, em 2009 – e à recuperação mundial, em 2010.”

Paula e Modenesi chamam nossa atenção para o fato de que o Brasil ao ter reduzido sua dívida externa e ter acumulado um alto volume de reservas internacionais contribui para que o governo pudesse lançar mão de políticas anticíclicas.

Nas palavras deles: “Cabe destacar que as ações do governo foram favorecidas por decisões tomadas no período anterior: a combinação de redução da dívida externa pública com a política de acumulação de reservas internacionais resultou em um saldo líquido credor do governo em moeda estrangeira. Assim, a forte desvalorização cambial que se seguiu ao contágio (43%, de setembro a dezembro de 2008) favoreceu, pela primeira vez, as finanças públicas, facilitando o uso de uma política fiscal anticíclica”.

A possibilidade de aumentar o endividamento das famílias também foi decisivo: “Por outro lado, as medidas de estímulo ao consumo foram beneficiadas pelo ainda moderado nível de endividamento das famílias – a razão endividamento sobre renda acumulada nos últimos 12 meses estava em 38%, em outubro de 2008”.

A crise do euro

O cenário global piorou em 2011 e 2012: “O governo Dilma Rousseff foi marcado, nos seus dois primeiros anos (2011/12), pela gradual piora no cenário internacional, devida à crise do euro, à fraca recuperação americana e à desaceleração dos países emergentes – a taxa de crescimento médio da economia mundial caiu de 5,1% em 2010 para 3,8% em 2011 e 3,3% em 2012”.

Desta vez, as decisões foram diferentes, segundo Paula e Modenesi: “Do ponto de vista da condução da política econômica, destacam-se mudanças no mix e nos instrumentos de política, com uso de medidas macroprudenciais monetárias e cambiais, forte redução da taxa Selic (de 12,5%, em julho de 2011, para 7,5%, em agosto de 2012) e – após a adoção de uma série de medidas regulatórias sobre os fluxos de capitais, inclusive sobre o mercado de derivativos – uma desvalorização cambial de 25% (entre agosto de 2011 e maio de 2012).

Graças ao bom desempenho fiscal no primeiro semestre de 2011, o Ministério da Fazenda pôde adotar medidas fiscais para estimular o setor industrial, combalido pela forte apreciação do câmbio e pela acirrada competição no mercado externo. O principal instrumento foi a isenção fiscal, incluindo a redução do IPI sobre bens de capital e a desoneração da folha de pagamento de setores intensivos em mão de obra, permitindo a mudança na cobrança da contribuição previdenciária, de 20% sobre o salário por taxas de 1% (ou 2%) sobre os lucros das firmas. No segundo trimestre de 2012, foram adotadas medidas adicionais no âmbito do Plano Brasil Maior, tais como: ampliação da desoneração da folha de pagamento para outros setores; redução do IPI de alguns bens duráveis (automóveis, geladeiras etc.); postergação do recolhimento do PIS/Cofins; e redução da alíquota de IOF sobre operações de crédito a pessoas físicas”.

Chamamos de formação bruta de capital fixo aos investimentos feitos na economia de um país, principalmente na construção e em máquina. Esse item contribui fortemente para a desaceleração segundo os autores: “Entretanto, o crescimento econômico em 2011/12 desapontou, ficando abaixo de 2% a.a. (média). O produto industrial caiu 0,4% a.a. (na média do período). Ainda que todos os itens do gasto agregado tenham caído, o mau desempenho da formação bruta de capital fixo foi o que mais contribuiu para a desaceleração”.

Queda de preços dos produtos que exportamos e piora nas expectativas dos empresários

“O fraco desempenho da economia brasileira resultou de um conjunto de fatores externos e domésticos. Embora a situação econômica da zona do euro agora não seja disruptiva, a ameaça de piora da crise afetou a economia brasileira – principalmente pelo canal do comércio exterior, por causa da redução do preço de algumas commodities e da queda geral da demanda externa por produtos manufaturados, semimanufaturado e básicos. Além disso, as expectativas empresariais deterioraram-se drasticamente, em função do risco de ocorrência de um “grande evento” (a derrocada do euro)”, marcam os autores.

Os estímulos vazaram para o exterior

“No lado doméstico, o produto industrial parou de crescer, em consequência, principalmente, do aumento do coeficiente de importações (valor das importações sobre o valor do produto doméstico do setor industrial), que passou de 17,0% no quarto trimestre de 2009 para mais de 22% no primeiro trimestre de 2012. O quantum da produção industrial estagnou-se, a partir de 2010, enquanto as vendas no comércio varejista continuaram aumentando, abrindo uma “boca de jacaré” entre essas duas tendências (gráfico 2). Ou seja, os estímulos dados à demanda vazaram para o exterior. Consequentemente, a utilização de capacidade instalada da indústria diminuiu, gerando capacidade ociosa, que contribuiu para a desaceleração dos investimentos em 2012- já afetados pela deterioração das expectativas empresariais em face da piora do cenário internacional”, revelam.

O gráfico 2 abaixo mostra que o consumo prosseguiu com força e, simultaneamente, houve retração na indústria, o que configura vazamento de consumo para o exterior: consumimos produtos que não produzimos. Saliente-se que juros altos contribuem para valorização da taxa de câmbio dado que entram recursos no país para se beneficiarem da taxa de juros e aumentam a oferta de dólares, que faz o dólar ficar barato frente ao real, que por sua vez torna o produto brasileiro menos competitivo.

Consequências do Senhor Mantega 2

Os autores chamam a atenção para o período pós 2010, no entanto veja que desde 2008 já se delineava crescimento do consumo com queda na produção industrial. Em outras palavras, o vazamento parece não ter ocorrido por conta exclusiva das medidas tomadas na crise do euro.

 Crescimento menor do consumo

“O crescimento do consumo começou a declinar gradualmente, em função da desaceleração da demanda e oferta de crédito bancário, dado o alto nível de endividamento das famílias – que cresceu gradualmente, de 32,5% em janeiro de 2009 para 43,8%, em agosto de 2012 – e o aumento da inadimplência (de 4,5%, em dezembro de 2010 para 5,9%, em meados de 2012). O gráfico 1 mostra a desaceleração do crédito bancário a partir de meados de 2011, puxada pelos bancos privados. O índice de liquidez dos três maiores bancos privados (relação entre disponibilidades mais títulos e total de ativo) cresceu de 11,6%, em junho de 2010, para 21,5%, em junho de 2012 – o que mostra a maior preferência pela liquidez dos bancos privados em momento de maior incerteza”.

Redução mais forte nas exportações do que na importações

“As exportações declinaram 5,3% em 2012 (em relação a 2011), enquanto as importações diminuíram apenas 1,4%. Assim, o saldo comercial diminuiu 34,8%. De fato, tanto os termos de troca quanto a demanda mundial declinaram, como efeito da desaceleração econômica mundial: os principais parceiros comerciais do Brasil (Europa, China e Argentina) tiveram um crescimento declinante em 2012”.

Efeito preço é superado por efeito renda mundial

“As evidências empíricas de vários trabalhos acadêmicos, que procuraram estimar a função exportação para o Brasil, sugerem que o efeito preço (resultante do movimento da taxa de câmbio) é superado largamente pelo efeito renda mundial. Esse resultado ajuda a entender por que a desaceleração econômica mundial em 2012 anulou os efeitos positivos da desvalorização cambial sobre as exportações brasileiras”.

O efeito preço é a maior competitividade do produto brasileiro pela desvalorização do real. O efeito renda é a desaceleração econômica no mundo. Em outras palavras, os autores entendem que a atividade mundial mais fraca fez com que, mesmo com preço mais competitivo, as vendas de produtos brasileiros não reagiram.

As importações demoram mais a cair

“Com relação às importações, deve-se considerar que anos seguidos de apreciação da taxa de câmbio (desde 2003) suscitaram um comportamento defensivo das empresas (substituindo bens de capital e insumos por produtos importados), que não se altera imediatamente ao sabor dos acontecimentos – principalmente, se considerarmos que uma desvalorização da ordem de 25% não é suficiente para compensar a forte apreciação cambial acumulada”, ponderam.

Gasto público não compensou desaceleração geral

“Finalmente, a dinâmica dos gastos públicos – incluindo os investimentos públicos – não foi capaz de compensar a desaceleração geral dos outros componentes da demanda. O gráfico 3 mostra a evolução do resultado primário (proporção do PIB) a partir do momento em que cada crise se iniciou. O “timing” e a intensidade da resposta de política fiscal nos dois momentos foram bem diferentes. De fato, a política fiscal anticíclica em 2011/12 foi muito limitada quando comparada ao período anterior. O superávit primário caiu imediatamente após o início da crise do Lehman Brothers. Durante a crise do euro, ocorreu o inverso, sendo que apenas no décimo mês após o início da crise verifica-se uma redução no superávit, de magnitude bem inferior à ocorrida na crise anterior”.

O gráfico 3 coloca o superávit primário no início de cada crise com o valor 100 e como evoluiu nos meses seguintes comparativamente a esse 100 inicial. O objetivo dos autores é mostrar que a resposta do governo foi menor e mais lenta na crise do euro.

 Consequências do Senhor Mantega 3

 As despesas cresceram em 2008 e as desonerações em 2012

“Acrescente-se que a composição da expansão fiscal limitou seu efeito anticíclico. Durante a crise do Lehman Brothers, o governo deu mais ênfase às despesas – como o aumento do salário mínimo e transferências sociais; aumento dos investimentos públicos e da Petrobras; e promoção do programa “Minha Casa Minha Vida”. Pelo lado das desonerações, algumas ações pontuais e temporárias foram adotadas, tais como redução de impostos para veículos, eletrodomésticos e insumos da construção civil e para operações de crédito. Enquanto a resposta à crise do Lehman Brothers envolveu um conjunto rápido de desonerações fiscais importantes e de expansão de despesas, a resposta à crise do euro ocorreu apenas a partir do segundo semestre de 2012, e enviesada na direção de desonerações fiscais, muitas das quais sem efeito claro sobre a atividade econômica. Os investimentos públicos representaram 1,1% do PIB em 2012, valor equivalente ao de 2011 e menor do que o de 2010. Considerando o impulso fiscal como um todo, é possível concluir que foi muito menor, atrasado e com uma composição que resultou em impacto menor sobre a atividade econômica em 2011/12 (em relação a 2009/10). De fato, a literatura apresenta evidências empíricas de que os multiplicadores fiscais de receita têm efeitos menores sobre a renda agregada do que os multiplicadores das despesas”.

Quando jogamos uma pedra em um lago formam-se diversas ondas. Da mesma forma quando “jogamos” 1 real na economia o efeito real na economia pode ser de 3 reais, 4 reais ou algum outro valor diferente de simplesmente 1 real. Chama-se multiplicador o efeito real de 1 real aplicado em despesa, investimento ou diminuição de impostos. A literatura, como afirmam os autores, mostra que o efeito multiplicador das despesas dos governos é superior ao efeito da diminuição de impostos.

A redução da taxa de juros e desvalorização do real não deram conta

“O governo brasileiro apostou que a mudança no mix de política econômica (redução da Selic e desvalorização cambial) – a chamada “nova matriz econômica”, segundo o ministro Mantega – somada às isenções fiscais seriam suficientes para impulsionar conjuntamente oferta e demanda agregada de bens, resultando em um crescimento econômico mais robusto. Quando ficou claro que não seria o caso (pelos motivos apontados), o governo procurou implementar medidas “ad hoc” para estimular o crescimento, como a extensão da desoneração de folhas de pagamento para mais setores. Tal ação, entretanto, não foi bem coordenada e careceu de consistência”.

Falha na comunicação

“A adoção de uma política fiscal anticíclica em 2011/12 se justificava face ao baixo desempenho da economia, mas veio atrasada e privilegiando isenções fiscais, em vez de investimentos públicos. Para completar, não foi comunicada aos agentes de forma adequada: o governo prometeu que até o fim do ano cumpriria integralmente a meta de superávit primário, acabando por utilizar artifícios contábeis para alcançar a meta. Melhor seria se já em meados de 2012 revisse realisticamente a meta, quando estava claro que não iria conseguir cumpri-la, justificando tal mudança, como fez em 2009, em função da desaceleração em curso”.

Desafios foram subestimados

“Concluindo, entendemos que não houve no governo atual a percepção de que a economia brasileira passava a partir de meados de 2011 por momento distinto do período de contágio da crise do Lehman Brothers. Assim, subestimaram-se os desafios colocados pela conjuntura mais recente e, consequentemente, utilizaram-se instrumentos incompletos ou mesmo inadequados. Isso parece evidenciar uma situação marcada por considerável descoordenação da política econômica, que está longe de poder ser definida como uma política genuinamente keynesiana”, concluem Paula e Modenesi.

Teria a descoordenação sido gerada uma resistência coordenada à queda da taxa de juros?

O título é alusivo ao artigo “The Economic Consequences of Mr Churchill”, em que John Maynard Keynes criticou o retorno do Reino Unido ao padrão-ouro em 1925. Os autores expressam pontos de vista pessoais.

O texto nos dá uma aula de economia, uma rara oportunidade de entender o que é, de fato, uma política keynesiana. Só não resta claro o título, pois Mantega era ministro da Fazenda em ambas as crises: uma com ações corretas, se entendi bem o que os autores queriam dizer, e outra com ações atabalhoadas, tardias e tímidas. Sem defendê-lo, parece-me um erro menos grave do que uma política ortodoxa típica.

Luiz Fernando de Paula é professor titular da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB). André de Melo Modenesi é professor adjunto do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e diretor da AKB.

About cesarlocatelli

Sócio Diretor da F2 Formação Financeira. Mestre em Economia e Professor de Finanças, Derivativos e Planejamento Financeiroa
This entry was posted in Frações Financeiras. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>