Frações Financeiras 35 – Cupom cambial, o que é?

canstockphoto3937502O cupom cambial é a taxa de juros em que são negociadas transações indexadas ao dólar no Brasil. Por exemplo, se uma empresa toma RS 2.250.000, equivalentes a US$ 1 milhão, para pagar em 1 ano e o valor é corrigido pelo dólar mais 2,5% ao ano, dizemos que o cupom cambial dessa operação é 2,5% ao ano. No resgate, será calculado, pela taxa de câmbio do dia, o valor em reais de US$ 1.025.000. Ou seja, a variação da taxa de câmbio, para mais ou para menos, será cobrada da empresa mais o cupom cambial.

Swap cambial

O Banco Central tem feito regularmente leilões de swap cambial, em que ele fica passivo em variação cambial mais cupom e ativo em Selic. Sua contraparte, por outro lado, fica com ativo em variação cambial mais cupom. No leilão realizado em 19/07/2013 o cupom cambial ficou em 1,63% ao ano. Isso significa que tudo funciona para um investidor que comprou o swap do BC, como se ele tivesse tomado recursos do BC pagando Selic e, ao mesmo tempo, aplicado recursos no BC recebendo variação cambial mais 1,63% ao ano. O BC, por outro lado, vai pagar o valor acordado corrigido pelo dólar e vai receber corrigido pela taxa Selic.

Exemplo

Digamos que o BC tenha vendido um swap cambial de 1 ano, com valor de US$ 1.000.000 com cupom de 2%. Digamos, também que no momento da operação a taxa de câmbio fosse R$2,20 por dólar. No momento do resgate o BC deve pagar US$ 1.020.000, que equivale a US$ 1 milhão de valor inicial acrescido do cupom de 2% em 1 ano. Esse valor deve ser convertido para reais pelo dólar da data do vencimento da operação. O BC deve, ainda, receber R$ 2.200.000 corrigidos pela taxa Selic acumulado no período. Se o valor corrigido pela variação cambial for maior do que o valor corrigido pela taxa Selic, o BC pagará a diferença. Caso contrário, o valor corrigido pela taxa Selic é maior do que o valor corrigido pelo dólar, a empresa que fez o contrato de swap com o BC deverá pagar a diferença.

Captação fora com aplicação no Selic e swap

Imaginemos, agora, um banco brasileiro que tome recursos fora do Brasil para pagar no dia 01/08/2013. Se ele representar baixo risco de crédito, vai pagar por esse empréstimo a taxa internacional, que está muito baixa. Para se ter uma ideia a Libor de 3 meses está em 0,26% ao ano. Só para exemplificar, digamos que nosso banco tome recursos a Libor +0,24% ao ano, ou seja, quase duas Libor, seu custo seria 0,5% ao ano.

Ele vende seus dólares e aplica no Brasil em taxa Selic, que tem ficado perto de 8,40% ao ano. Por enquanto, ele tem um passivo em dólares mais 0,5% ao ano e um ativo rendendo taxa Selic. Para não correr o risco da variação cambial ele compra swaps cambiais do BC. Ao fazer isso ele agrega, ao que já possui, um passivo em Selic e um ativo em câmbio mais o cupom de 1,63% do último leilão.

O ativo em Selic zera, é anulado, com o passivo em Selic do swap. Na ponta do câmbio ele deve câmbio mais 0,5% para quem emprestou dinheiro para ele lá fora e tem a receber do BC câmbio mais 1,63% do BC. Grosso modo, ele travou seu ganho em algo próximo a 1% ao ano e não tem mais risco de variação do câmbio.

Futuro na BM&F

É possível fazer a mesma trava, sujeita obviamente à liquidez do mercado, no mercado futuro de dólares e no mercado futuro de cupom cambial. Exemplificando: se o dólar ä vista está cotado a R$ 2,258 e o futuro para 1 de agosto está cotado a R$ 2,272, sabemos que está embutida nessas cotações uma variação cambial próxima a 6% ao ano. Ao tomar recursos fora do Brasil a 0,5% ao ano, aplicar no Brasil a uma taxa Selic de 8,4% ao ano e comprar o câmbio futuro a 6% ao ano, o investidor estará travando seu ganho, grosso modo, a pouco menos de 2% ao ano.

Arbitragens

Esses ganhos com swap ou futuros nos dão uma ideia do que é possível ganhar com arbitragens de juros externos com juros internos, no entanto, a conta não é precisa pois para estimar adequadamente os valores precisaríamos considerar todos os custos envolvidos, as corretagens, eventuais pagamentos de ajustes, eventuais imposto, etc.

Posição vendida

A maior possibilidade de ganho, como sempre, se dá quando o investidor corre maior risco, nesse caso o risco da variação cambial. Pois toma dinheiro no exterior a, digamos, 0,5% ao ano e aplica no Brasil a 8,4% ao ano. Se a variação cambial for zero, ou seja, a taxa de câmbio se mantiver a R$ 2,25 até a hora dele comprar os dólares para pagar sua dívida, ele embolsará a diferença entre as taxas. Essa operação é mais comum, mas deve ser monitorada o tempo todo para comprar o câmbio ao primeiro sinal de desvalorização do real.

Resumindo

Ficar vendido já significa que se subir você perde. Ficar comprado já significa que se cair você perde. Quando você vende à vista e compra futuro, a gente não diz que você está vendido, diz que está travado ou “hedgeado”. Em alguns momentos alguns bancos vendem no mercado à vista e não compram no futuro para ter a chance de ganhar mais. Aqui, se ocorrer a desvalorização e o dólar subir, eles vão perder. Em outros vendem no mercado à vista e compram swap ou futuro e aí ganham a diferença e estão imunes a qualquer variação do câmbio.

O fluxo cambial e as posições dos bancos

As posições compradas ou vendidas dos bancos, em geral, não dependem da entrada ou saída de dólares do país, mas sim da aposta que eles se dispõem a fazer em desvalorização do real, ocasião em que ficam comprados, ou da aposta em valorização do real ou manutenção da taxa e, nesse caso, ficam vendidos.

Os supridores usuais de dólares para o fluxo do dia a dia são os exportadores e as empresas que fazem investimentos diretos ou em carteira no Brasil. Os compradores são os importadores e aqueles que remetem lucros ou dividendos ou fazem investimentos fora do Brasil. A atuação dos bancos, no dia a dia, é de mero intermediário.

Se, quando computadas todas as entradas e saídas do dia ainda faltarem dólares o ajuste ou se dará pela subida da taxa de câmbio ou por intervenção do BC. Ao subir a taxa no mercado, exportadores ou outros que tenham dólares acabam se animando a vender e suprem a falta de dólares. O BC não tem compromisso de vender, mas pode fazê-lo para diminuir a volatilidade. Se o BC não entrar e quem tem dólares resolver não vender, a cotação subirá, até que o vendedor apareça ou o comprador desista e adie sua compra. Os bancos só venderão dólares, aumentando sua posição vendida ou diminuindo sua posição comprada, se acreditarem que a taxa vai permanecer no mesmo patamar ou cair. Eles não vão suprir a demanda simplesmente para atender o mercado.

Do outro lado, quando sobram dólares, o ajuste se dará por queda na taxa ou por compra do BC ou pelos dois juntos, que foi o cenário que vimos durante todo o tempo que o BC acumulou 370 bilhões de dólares de reservas.

About cesarlocatelli

Sócio Diretor da F2 Formação Financeira. Mestre em Economia e Professor de Finanças, Derivativos e Planejamento Financeiroa
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